Acervo Documental Mesopotâmia Mineira

Acervo de documentação cartorial do século XIX da região de Pará de Minas, antigo arraial Patafufo. Contato com o coordenador: fonte@nwnet.com.br

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Terra Blog

07.01.08

Benjamim de Oliveira

Flávio Marcus da Silva


Durante o século XIX, nos arraiais e vilas de Minas Gerais, quando se aproximava a data da chegada das companhias de circos, com seus saltimbancos e cavalinhos, os habitantes dessas localidades tinham seus desejos, alegrias e temores despertados pela perspectiva de assistirem a algo diferente do que estavam acostumados e de entrarem em contato com pessoas que tinham escolhido um modo de vida completamente fora dos esquemas tradicionais da época. As notícias da proximidade de circos enchiam as páginas dos jornais locais, e quando finalmente chegavam, sua armação despertava a curiosidade dos habitantes que, maravilhados, reuniam-se em torno da cena, invadidos por um misto de encantamento e ansiedade. As crianças simplesmente adoravam! A historiadora Regina Horta Duarte, em seu livro “Noites Circenses: espetáculos de circo em Minas Gerais no século XIX” – resultado de sua tese de doutorado –, cita o caso de uma menina em Diamantina que, em 1880, recebeu a notícia de que iria ao circo: “Tendo seu pai anunciado à mãe que iria levar toda a família ao circo, a menina e sua irmãzinha menor passaram o resto do dia correndo abraçadas, aos pulos, imaginando o espetáculo”.

No entanto, os circos despertavam, também, um certo temor, pois era comum associá-los ao que é vago, indeterminado, confuso, desordenado, indeciso, que não tem constância ou estabilidade. Em uma época em que o movimento de fixação parecia querer dominar as relações sociais em Minas Gerais, após a loucura da época do ouro, os circos, segundo Regina Horta, “acenavam com possibilidades de uma vida de trajetos em oposição à família, ao trabalho fixador, à vida estabelecida em um lar imóvel”. É por isso que os circos despertavam não só alegrias, mas também temores e desejos. Era mesmo comum ouvir-se dizer que, assim que uma companhia se retirava de uma determinada localidade, algum rapaz ou menino tinha fugido de casa para acompanhar o circo.

Foi o que aconteceu, em Pará de Minas, com o menino Benjamim, que, no ano de 1881, fugiu com a Companhia de circo Sotero, tornando-se um palhaço muito conhecido e admirado pelo público. Regina Horta Duarte se interessou muito pelo caso de Benjamim e encontrou, na obra do professor Pedro Moreira, as informações de que necessitava para ilustrar um dos capítulos mais importantes do seu trabalho, que discute a questão do apego à fixação do mineiro no século XIX. Será que o mito da mineiridade apagou o nomadismo, o desejo de abandonar tudo e percorrer o mundo do espírito do mineiro? Será que o caso de Benjamim e de outros jovens que abandonaram suas famílias para acompanhar os circos não são indícios de que o mineiro era menos quietinho e apegado às tradições do que o mito da mineiridade faz parecer?

Ao que parece, Benjamim deixou poucos registros de sua vida em Pará de Minas, antes de sua partida rumo às aventuras do mundo do circo, mas sabemos que, no seu trabalho, foi apontado como “mestre de gerações” e “rei dos palhaços do Brasil”.

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